Testemunhos

Nos terrenos, a hora da despedida é, desde o início, um momento de reflexão, em que os fellows confiam às próximas edições as suas angústias e conquistas. Um momento de partilha, muitas vezes tomado pela nostalgia.

Testemunhos
  • Domingos Freire de Andrade

    Domingos Freire de Andrade

    Bem-vindos a Timor Lorosae, a terra do sol nascente!

    É isso mesmo, uma terra cuja sua beleza vos vai fazer querer acordar todos os dias às 06:00 para ver a maravilha de um nascer do sol. Neste momento não vos é possível compreender a graça que tiveram em o vosso MOVE ser em Timor-Leste. Este é o terreno em que poderão vivenciar a cultura mais diferente, onde poderão encontrar a maior variedade de beleza natural que vai dos 2963 metros do topo do Ramelau às várias dezenas de metros de profundidade da parede de coral em Adara, Atauro. Pela sua distância de Portugal, que é maior em horas do que em quilómetros e pela barreira que o Tétum representa à partida, estão no terreno mais desafiante que o MOVE vos podia dar. No universo MOVE, Timor tem a economia em maior crescimento e desenvolvimento, o que consequentemente faz com que tenham os projectos mais estimulantes. Tudo isto leva a que o privilégio de fazer MOVE só seja ainda maior. Rapidamente vão perceber que uma vez Maubere, serão Maubere para sempre!

    Mas para que o sejam e para que possam fazer uma boa missão, devem estar próximos da realidade em que vão servir e devem aprender a compreender e fazer-se compreender junto dos Timorenses o mais rapidamente possível. Apliquem-se na aprendizagem do Tétum, é o melhor investimento que podem fazer nos vossos primeiros tempos livres, vai vos abrir inúmeras portas e transportar a vossa experiência para outro patamar. Igualmente importante é conhecerem a história de Timor1!

    Depois de conhecer mais a fundo a história deste país inacreditável a minha visão sobre Timor e os Timorenses ficou profundamente transformada. Para conhecerem, compreenderem e servirem com profundidade os Timorenses, é essencial que conheçam a sua história e o seu contexto, isso irá ajudar-vos a compreender muitas das coisas que vão acontecendo no vosso dia-a-dia. Para mim isso foi importante para ganhar a tremenda admiração que tenho pelo Timorense, que é e sempre será um guerreiro, que se rege pelo lema de que “a luta continua!”

    2. Estes tempos em Timor poderão ser para vocês também tempos de grande transformação e crescimento interiores. Desde o início, quando sentirem o choque da chegada, das condições da casa onde vão viver seis meses ou da pobreza que se vive no país, apreciem a tremenda alegria com que vivem aqueles que têm tão pouco. Vão-se sentir tanto mais realizados, quanto mais simples forem. Dos meus dias mais felizes em Timor, foram passados no Oecusse, isolado do mundo, a dormir durante mais de uma semana numa tenda, mas focado na nossa missão. Pessoalmente, penso que estes meses me fizeram uma pessoa mais tolerante, aberta aos outros e menos segura de possa ter sempre razão, a realidade em Timor é muito diferente daquela a que estamos habituados e a convivência em equipa também ajuda nesse caminho. Foi bom para mim tomar consciência diariamente de tanto bem recebido. Omeletes com ovos todos fazem. Omeletes sem ovos, só o MOVE! O que quero dizer com isto é que quando as externalidades são positivas é fácil fazer um bom trabalho. No entanto, é importante que esse trabalho seja igualmente bom quando as mesmas sejam negativas.

    Prevê-se que com a formação do Governo e a aprovação do orçamento de estado, o próximo ano seja muito favorável para trabalhar em Timor-Leste. Contudo, devem estar preparados para contornar os problemas que vos vão surgindo. Alguns dos principais frutos que atingimos, as aulas do CNEFP no Oecusse e o impulso na sua incubadora (MEDI) surgiram precisamente de não existirem aulas em Tíbar, por falta de orçamento de estado aprovado.

    Meus amigos, a necessidade faz o engenho! Sobre os projectos, gostaria de vos deixar algumas notas quanto à postura que penso ser a adequada. Gosto de ver a posição do MOVE à imagem de um consultor, em muitas das suas dimensões. O MOVE não tem horário, as horas nunca são extras, estamos sempre disponíveis, mesmo que seja ao fim-de-semana. O MOVE não é um empregado que cumpre tarefas, ao invés, procuramos propor e concretizar propostas de valor acrescentado, inovadoras. O MOVE nunca é responsável de nenhum projecto, é um apoio a quem o seja.

    O MOVE não trabalha para ninguém, o MOVE trabalha com muita gente. Estas pequenas diferenças de atitude podem impactos muito positivos no nosso trabalho. Sejam dinâmicos, criativos e exigentes nos vossos projectos! Ainda no âmbito dos projectos, é importante que estejamos sempre focados em promover e alcançar a autonomia dos projectos, não nos prendendo em saudosismos no momento de os darmos por concluídos, de forma a estarmos igualmente atentos e disponíveis para novos projectos. Estejam sempre abertos a todos os desafios, nunca fechem uma porta à partida. Alerto ainda para um risco: o de viver um Erasmus 2.0. Propostas para festa nunca irão faltar. No entanto, isso poderá desfocar-vos do essencial, os projectos. Para que a criatividade surja nos mesmos é preciso que pensemos neles para além do horário de trabalho, os projectos devem estar sempre a ressoar na nossa cabeça, à espera de um momento de iluminação. Para além disso existem muitas oportunidades de ajudar Timor para além do MOVE, há um orfanato para visitar e uma Universidade dos Jesuítas a precisar de professores de português. A forma de ver estes 6 meses gera muitas teorias junto dos MOVEs no momento de partir, ora se pareceu 1 mês pela velocidade com que passou ou se pareceu 1 ano pela quantidade de coisas que foram vividas. Penso que isto pouco importa, mas é importante que garantam que não deixem nada por fazer. Seja trabalho ou diversão, importa que tracem objectivos e comecem a bombar nos mesmos desde o primeiro momento, não adiem. No fim do dia o que conta é o que fizeram pelos outros e a forma como se entregaram a estes, os objectivos que alcançarem e as relações que criarem. Assegurem que quando saírem de Timor possam dizer: “dei o máximo de mim, no mínimo que fiz”.

    Obrigado barak tebes ba tempu, ba atensaun, ba oportunidade!

  • João Guilherme Nogueira

    João Guilherme Nogueira

    “Considero que me adaptei bem às condições e ao país logo desde o início e mesmo assim notei uma grande diferença dos primeiros 3 meses para os últimos 3 meses.

    O MOVE ainda tem muito para melhorar em Timor e há muito trabalho pela frente mas nada se consegue se não estiverem integrados e motivados para fazer isto andar. Timor tem muitas coisas boas para vos dar e ensinar, o melhor conselho que vos posso dar é não serem conservadores em relação a nada, estarem de braços abertos para o país, para a cultura e para as pessoas, e estarem preparados para o desconforto. Não tenham vergonha e falem com as pessoas na rua, timorenses ou malaes, combinem programas com eles, façam o máximo de atividades possíveis, riam-se, aprendam Tétum, sejam pró-ativos, procurem projetos, façam-nos, divirtam- se, trabalhem, e sobretudo divirtam-se a trabalhar. O vosso voluntariado é aquilo que vocês fizerem dele.

    Apenas 6 meses é muito pouco tempo e quanto mais cedo se adaptarem, mais proveito irão tirar disto, acreditem que vale muito a pena!!!!”

Testemunhos
  • Beatriz Nogueira

    Beatriz Nogueira

    “É difícil escrever este testemunho. Estou a um mês de acabar o MOVE e este testemunho parece oficializar ainda mais a minha partida. A um mês de regressar a casa é complicado não pensar que podia ter feito mais e que o tempo passou a voar, mas a verdade é que tudo o que eu e a minha equipa fizemos teve impacto e que estes seis meses valeram, sem dúvida, a pena!

    O MOVE era uma experiência que já queria ter há algum tempo e, tendo em conta que várias amigas minhas já o tinham feito e que diziam maravilhas da experiência, a vontade em vir era mais que muita. No entanto, a minha relutância em vir para os Açores era alguma, porque tinha na cabeça que uma experiência de voluntariado só valia a pena fazer num país em desenvolvimento, onde as dificuldades fossem aparentes. A verdade é que estava enganada e, depois de estar cá, percebi isso. Em São Miguel há um grande défice de motivação e proatividade, que se nota bastante nas gerações mais jovens e que é muito preocupante e, apesar de os apoios do governo serem mais que muitos, é necessário que as mentalidades sejam mudadas, e é aqui que nós entramos. Mas, melhor do que ser eu a explicar-vos a importância do vosso trabalho e o encanto dos Açores, acho que vão perceber isso pouco tempo depois da vossa chegada. Se forem como eu, à medida que o tempo passar, vão apaixonar-se cada vez mais pela ilha. Vão se apaixonar pelo caminho para casa, pelo mar que vão ver todos os dias, pela simpatia e simplicidade das pessoas, e sobretudo, pelo trabalho que vão poder fazer.

    É difícil escrever este testemunho. É difícil ter de me despedir de todas as pessoas com quem criei uma relação. Acho que o que mais vou recordar desta experiência vão ser as pessoas e por isso é tão difícil despedir-me delas. É difícil despedir-me da Adelina, da Emiliana e do Roberto que acompanhei durante todo o tempo e por quem sinto um enorme carinho e amizade, é difícil despedir-me dos meus alunos do Porto Seguro e do Trevo de quem tanto gosto e que tanto me ensinaram, e é particularmente difícil despedir-me dos meus quatro colegas com quem vivi e com quem partilhei momentos únicos durante estes meses e de quem vou ter muitas saudades.

    Agora é a vossa vez de puderem aprender tanto quanto eu e de puderem criar estas relações que só o MOVE vos dá. Venham com vontade, garra e persistência. Fazer parte das primeiras edições de um terreno é difícil e ingrato e, por vezes, pode parecer que não estão a fazer a diferença, mas estão! Estão a criar as bases para que futuras edições possam trabalhar ainda melhor que vocês. E, se num ano os resultados já saltam à vista, imaginem daqui a 10 anos!

    É difícil escrever este testemunho. Chegou a altura de vos passar todo o trabalho que com tanto esforço e carinho fiz e espero que o agarrem ainda com mais força que eu, só assim vão chegar ao final com a sensação de dever cumprido! Vivam esta experiência ao máximo, aproveitem bem, conheçam a ilha, deem passeios, façam amizades, provem queijo branco com pimenta da terra, vão fazer trilhos, apanhem sol e, acima de tudo, divirtam-se!

    Por fim, obrigada Inês, Joana, Tomás e Gui por me terem ajudado a viver esta experiência da melhor forma possível!”